Islândia, crise e revolução

Muitas pessoas — eu inclusive — compartilharam no Twitter e no Facebook um texto publicado no blog do Nassif: a revolução em curso na Islândia[1]. A fonte desse texto, conforme link no fim do post é uma publicação de 10 de setembro de 2011 no blog EngajArte[2]; o texto original, por sua vez, foi escrito por Deena Stryker e publicado em 1º de agosto de 2011 no site Daily Kos[3].

Localização da IslândiaA Islândia é uma ilha à noroeste do Reino Unido e à leste da Groenlândia. Perdoem-me a eventual imprecisão, providenciei um mapa na Wikipedia que poderá mostrar mais claramente a localização da ilha que tem pouco mais de 100 mil quilômetros quadrados e população estimada de pouco mais de 300 mil habitantes, também conforme uma consulta rápida à enciclopédia online[4].

Pareceu realmente animador o relato de Deena Stryker, no entanto o texto não passa ileso por uma análise um pouco mais atenta. Por exemplo, a Islândia não faz parte da União Europeia, é um membro candidato. Outros erros são apontados pelo texto “a deconstruction of ‘Iceland’s on-going revolution'” — “desconstrução de ‘revolução em curso na Islândia'”[5].

O texto de Stryker diz que:

  • “No início da crise financeira de 2008, a Islândia declarou-se literalmente em falência.”
  • “Em 2003, a dívida da Islândia era igual a 200 vezes o seu PIB, mas em 2007 ela chegou a 900 vezes.”
  • “Os três principais bancos islandeses, Landbanki, Kapthing e Glitnir, quebraram e foram nacionalizados, enquanto que a coroa islandesa perdeu 85% do seu valor em relação ao euro. No final do ano, a Islândia se declarou falida.”
  • “a crise deu lugar à recuperação dos direitos soberanos dos islandeses, através de um processo de democracia direta participativa, que finalmente conduziu a uma nova Constituição”

E o texto publicado no site The Reykjavik Grapevine aponta as correções:

  • A Islândia não foi à falência. Este erro foi duramente criticado em 2008, quando os bancos da Islândia entraram em colapso e se espalhou a notícia de que a Islândia, o país, tinha ido à falência. Isto é tão errado hoje como era na época.
  • Esses números são extremamente imprecisos. A dívida da Islândia era igual a 57% do PIB em 2003 e caiu para 43% do PIB em 2007, de acordo com estatísticas do Banco Mundial. Em 2009, esse percentual chegou a 104%.
  • Mais uma vez a afirmação “no final do ano a Islândia foi à falência” está errada. A Coroa Islandesa perdeu aproximadamente 50% do seu valor em relação ao Euro. (…) Influenciado pelo FMI ou não, pode-se notar que dois dos três bancos que a Islândia não podia socorrer tinham dívidas que eram nove vezes o PIB do país, esses bancos foram privatizados novamente e há atualmente um debate sobre a privatização do terceiro.
  • Houve um referendo para eleger uma Assembleia Constituinte — um grupo de 25 pessoas encarregada de escrever uma nova Constituição. Havia mais de 500 candidatos para escolher, e os resultados foram anulados porque os procedimentos eleitorais apropriados não foram seguidos. Ao invés de realizar outro referendo, os indivíduos foram “nomeados” para uma Comissão Constitucional. Eles já apresentaram uma “proposta” para o projecto da nossa nova Constituição. Mas a Constituição em vigor ainda é a antiga. (…) A ideia de que a Constituição foi feita de forma colaborativa na internet, como a imprensa internacional têm noticiado é, no máximo, meia verdade. Aceitar algumas sugestões por meio da internet não é suficiente para afirmar que ela teria sido escrita por meio da rede.

Os governos tecnocratas impostos aos países europeus mais abalados pela crise põem em xeque instituições democráticas e continuam a seguir a velha receita de “sacrifícios”, fazendo o povo pagar pela ganância sem limites dos arquitetos da crise. Acredito que a repercussão nas redes sociais se deve ao fato de o relato de Stryker ir ao encontro de necessidades de mudanças como maior controle do sistema financeiro, auditoria da dívida e maior participação da população nas decisões em seus países.

Tentar fazer da Islândia um exemplo de como essas transformações já estariam em curso em estágio avançado pode ter repercutido na rede novamente — visto que o texto original é de agosto do ano passado — e se houve alguma contribuição para compreender a crise atual, foi a possibilidade de analisar a conjuntura real daquele país.

[1] A revolução em curso na Islândia no blog do Nassif
[2] “A revolução popular na Islândia” no blog EngajArte
[3] Iceland’s on-going revolution no site Daily Kos
[4] Iceland, Wikipedia
[5] A deconstruction of ‘Iceland’s on-going revolution’ no site The Reykjavik Grapevine

Deixe uma resposta